Essa rua também é minha!

 Se essa rua fosse minha... E ela é!

Desde os 17 a rua faz parte de mim. É meu espaço de encontros, aprendizados, treinos. Nunca fui de ser papum de aprender as coisas. Para o movimento, a rua, o espaço da rua se encontrar em mim, levava tempo. Depois virava uma certa tatuagem me marcando toda. 

A rua sempre me trouxe respostas, nervosismos e calmaria. Descobri que independente da roupa, se meu moleton balão, um short ou uma saia longa posso ser perturbada. Se andando, treinando ou simplesmente aprendendo sobre a rua e sua vida, sou alvo de convites, comentários que sequer dei abertura a conversa. A cor quase sempre é mesma do se achar no direito de falar o que quer. E haja paciência para ouvir exótica como se fosse elogio.

Estar, passar, treinar, dançar na rua me abriu umas percepções. A necessidade de segurança é uma delas. Já viu a quantidade de carros que param para ver uma mulher treinar? Já viu o público que se forma quando uma mulher está na rua? Já ouviu os comentários misóginos quando uma mulher está ali na rua? Não, amigo, você não defenderia essa mulher. Afinal, você não fala nem com os seus parças. Inclusive, você realmente considera a rua um espaço masculino.  E muitas de nós aprendemos isso. Experimentar a rua fica apenas na infância. Depois somos trancafiadas e nos guardamos dos perigos da rua. 

Toda vez que estou treinando observo os olhares das adolescentes. Raramente é julgamento, por mais que ainda insistam na conversa de que mulher inveja mulher. Há curiosidade na movimentação. Há curiosidade por eu estar sozinha naquele espaço, suportando e encarando olhares.

Há tempos coloco para mim de que a rua também é minha. E eu percebo a diferença entre quem admira e quer dividir espaço e quem se incomoda e acha que não devo estar ali. Essa rua é minha e eu me movo e dançarei por ela. Vem comigo?




Desde o século XVI

 Em algum lugar uma história queima

Papéis que guardavam a oralidade

Morta nas mãos dos colonizadores

Ditadores... Poderosos...

Alguns expulsos da terra diversa

Para dar lugar ao adverso

Que só quer cifrão em moeda que não é o real

Até hoje compram discurso de santidade

Há quem ainda que martirize o corpo?

Continua este como tabu?

Quando não é o seu próprio

Tudo justifica que parecia convite

Embora o incômodo do olhar

O rangido de dentes de raiva

Digam o oposto

Se não é seu, não toque!

O pecado é da cor oposta à nomeada

Pertence apenas a quem nomeia

Não entenderam nada do que o refugiado disse

Na verdade, nem tentaram

Fizeram uso dele para ratificar o que são:

Misóginos, homofóbicos, transfóbicos

Ladrões, desonestos e babacas.



Quem escreve sua história?

Embora coloquem como dual

Na verdade é um sistema

Um doente adoece o restante

Por mais que coloquem o pensamento vindo do topo

É a memória, a vivência do todo que transforma a realidade

Quem vive no passado ou no futuro pode adoecer o presente

Poderia entender e aprender com ele

Poderia entender que raiva não se guarda

Se grita

Calar demais e falar baixo é só um jeito de silenciar quem se é

E isso adoece

A raiva faz revolução

Antes respeite a biblioteca que se é

Aqui se é livro e escritora.



Memória, sabedoria ancestral

 Escadas, ruas, árvores e baía

Sempre movimentos

Descansa, senta, respira, continua

Um passo pequeno é um passo

Pode ser cadeira de leitura

Pode ser som de acalmar os medos

Nunca se está só

Dos medos de se ver o que se sente

A religiosidade de um não explica o sentir do outro

Se são caminhos e comunicação

Quanto se está atento a ouvir?

Às vezes a prova está na cara

E a resposta não é pudica

São Tomé esqueceu que vai além dos olhos

O que chamam de fé é sabedoria, memória ancestral

Já ouviu, viveu seu corpo?



Enquanto um pedaço de mim é feito de carne e lógica, o outro possui emoções que às vezes necessitam de um meio, de uma porta-voz. E assim, e aqui as expresso...