Não preciso ser responsável o tempo todo

Preciso deixar meu lado responsável um pouco para lá... bem para lá. Fico preocupada demais com o que pode acontecer que deixo de curtir o presente e a presença das pessoas. Necessito de deixar as rédeas soltas e permitir que meus pés descalços sintam a terra que pisam. Necessito de sentir a chuva e o vento bagunçando os cabelos sem olhar para trás ou para celulares pensando em como organizar algo que não é meu.

Percebi isso voltando de São Mateus. Fui com a turma do Contemporâneo do Comunidança para a apresentação de final de ano do Belas Artes. Escola e ONG administrada pelo Marcelo, Camila e equipe. A galera faz tudo com muito amor, tudo com vontade. E chegam junto mesmo com quem é de outros lugares e queira aprender e somar. Ao mesmo tempo que pude perceber que eram uma inspiração do caramba, me questionei quanto tempo perdi de conversas com eles por estar preocupada com horários, van, se a maquiagem ou a roupa estavam ok, ou não.

O mais importante dessa viagem era criar laços e memórias de histórias inspiradoras, de gente incrível que eu conheci. E eu poderia ter aproveitado mais, se me deixasse ser mais livre, menos responsável. Eu não estava organizando, logo deveria curtir mais. Por que raios me coloco tarefas, receios e obrigações que não são minhas? Preciso de uma coisa: entender que eu não preciso ser responsável o tempo inteiro. Eu posso deixar outros fazerem e curtir mais.


Des-pir... to-car...


Despir
É mais do que tirar a roupa
É permissão de si
(de mim)
Tabus, medos vão se revelando
Não caem todos de uma vez
Revelam-se, destacam-se
E eu não posso mais fingir que não sei
Ou que não vejo onde caio, erro, fujo
O vestido cai
A vontade sobe
Não é conto de fadas
Não é
É um mundo de sensações
Um turbilhão, um furacão, um tornado
Tô de ponta à cabeça
O corpo parece forte
Só parece
A cabeça pira
Às vezes dá vontade de fugir do descontrole
(e quase consigo)
Noutras, a vontade de entrega é forte
O outro importa
Na respiração, no desejo, no toque, no gozo
E tudo junta
E tudo quer
E tudo toca, beija, deseja
Não é fácil controlar desejos
O corpo entrega, se entrega
Despede-se da racionalidade
E, das roupas, se despe
Cada vez é diferente
Cada vez parece mais íntimo
A pele inteira é um universo
E os outros sentidos vão quase numa reação em cadeia
Será que o corpo se fechará de novo?
Não importa o que pode ser
Não agora
Importa o que é
Presente, presença
Sentir a respiração indo com a sua
Olhar a pele
Me deixar tocar, to-car
Importa você
E eu quero você

Laço feito de chuva


A primeira vez que o vi, não tenho certeza do dia ou do mês, mas acho que era uma quarta. Vi aqueles dreads, nunca tinha visto outros tão bonitos. Foi isso e mais esbarrões pelos corredores e às vezes pelo Centro. E não passavam disso. Minha atenção estava para outro.

De tantos esbarrões, acabamos por gravar a cara um do outro. Até que um evento pelo Centro e uma ajudinha das redes sociais trocamos contato. Estava abafado pelo Centro, e ele passou a falar muito pelas redes.  E como já tinha me frustrado no interesse anterior, levei tempo para dar crédito a ele. Só que aproveitei que queria ir a uma exposição e o chamei. Acho que ele pensou que era conversa, mas fomos juntos.

Uma coisa que descobri dele é que tinha a tendência de modificar meus planos. "Vou esperar um mês para pensar em ir à casa dele". E no terceiro encontro dormi por lá. Não vou me envolver. Vou deixar rolar e ver no que dá. E senti ciúmes. Raridade aqui para mim. Logo eu muralha, bruta. Me vi mexida, remexida e intensa. Ainda me questiono se algum momento antes passei por sensações parecidas.

Desde o primeiro dia, toda vez que realmente ficávamos só nós, o tempo virava e a chuva se fazia presente. Eu percebi isso quando ele decidiu encerrar a história. Talvez porque eu seja terra e ar, e ele seja fogo, a água queria brincar com essa combinação doida. Ou talvez um motivo para ficarmos mais tempo juntos. Como preguiça boa de domingo. Para que olhar se faz dia lá fora?

Feitos de fogo. Não! Faíscas, que juntas principiavam os incêndios das nossas incertezas, vontades, gritos. Sempre me achei pedra, folhas e terra. Blindei, armei para sempre correr quando algo aparecia para me tirar a certeza do chão. Gosto de segurança, confesso! Você já via de longe que era agito, fogo. Só que a segurança que me confortava nunca me fez sair do lugar, ou de me enxergar fazendo outras coisas.

Achei que carregava baldes, bacias para afastar, distanciar sua margem da minha. Mas... ele foi tomando lugar, espaço. Notou que sempre nossos encontros mais próximos, intensos, acabavam virando o tempo? Eu me apaixonei. Posso falar por mim. Queria chuva na cabeça para apagar meu fogo por ele. Tem conforto, fogo, vontade no corpo. Me sinto à vontade. Não tem tabu. E a respiração junta no abraço.

Parece vício. Sério. De verdade. Quando é que isso pára? Quando cessa? Quando? Como me afastar? Como? Só sinto o corpo, as emoções e o choro indo e vindo como ondas da baía. Parece que fui expulsa do rio que me permiti entrar. Será que essas são as tais relações líquidas?

Como fazer se sou feita de barro, pedra e folhas? Cadê meu pássaro se debatendo e se debandando para outro lugar? Sou carne, ossos e pêlos. Quero só um abraço. E olhar tudo que é popular sem querer estar agarrada a ele. Só ver, lembrar, mas sem ser ausência. Só uma lembrança boa. Será que consigo? Quanto tempo leva para ver as outras margens do mundo? E rever e reaver a minha? Todas as festas são festas e eu queria voltar a dançar por mim.

Um abismo chama o outro. Eu chamei o dele pensando que fosse espelho dos meus cabelos ao vento. 

Medo ou alerta?



O chão se abriu
Ando vulnerável e ciumenta
De onde tirei esse sentimento de posse?
Tem algo futucando o meu juízo
Me senti envolvida demais
E o jeito de ser do outro livre demais
Está me incomodando
Desde ontem me vem as perguntas:
Estamos juntos? Ou sou só eu?
O chão se abriu
Me enrolei rápido demais
E não sei se só quero fugir
A qualquer sinal de repetir cenas
Ou se é um sinal para ficar alerta
Alguém me abraça, por favor?

Enquanto um pedaço de mim é feito de carne e lógica, o outro possui emoções que às vezes necessitam de um meio, de uma porta-voz. E assim, e aqui as expresso...