Sobre dias ruins



Quando a raiva cega
Quando a tristeza cai nos ombros
O choro vem fácil
Fácil, fácil
Nada faz parar
E a saúde vai pelo ralo
Dias ruins são necessários
Para aprender, crescer
Ou ver outras possibilidades
O problema é não entender
Onde é dia ruim
Onde é acomodação
A saúde grita
A água cura
Que bom que me lembrei disso
O amor tem de ser regra
E se fazer morada

Deja Fu


Entrar em choque por constatar algo que vivo tentando anular. A pancada foi tão forte que me senti um pouco na lona. Mexeu com algo que achei que já tivesse resolvido, sarado há alguns anos. Só que acordei mexida, porque vieram lembranças, medos, e uma confissão que teimo em fingir que não preciso fazer.

É muito cômodo correr de quem demonstra algo. Ou só buscar interesse fora da área de cobertura. Onde não preciso encarar, competir com ninguém, chamar atenção, tentar seduzir. Até porque (PQP!) eu não tenho ideia do que é isso. É cômodo! Quando acontece a raridade de me interessar em alguém, a primeira coisa que faço é colocar na cabeça que o outro não tá interessado. Se eu suspeito que há chance, mas acho que alguém que eu gosto (não precisa nem ser amiga) também tem interesse na mesma pessoa, jogo a toalha, desisto, isso quando não junto as pessoas.

Colocar na cabeça um interesse distante fisicamente é fácil. Alimenta um pouco a carência, e tira a necessidade de me deixar envolver, confiar em possibilidades próximas. Não preciso prestar atenção. Posso olhar para os lados que outros encantos não me afetam. É uma forma de bloquear a esponja que eu sou em tantos pontos. 

Lembrando aqui que tenho por hábito sentir junto. Dificilmente vejo uma situação sem me afetar nela. Se alguém chora, acabo chorando junto. Se escuto alguém respirando, acompanho a respiração, a tensão. Não tem nem a ver com conhecer a pessoa, ou ser amiga dela. Tem a ver com estar presente com ela ali e me sentir dividindo algo que a incomoda. Me sinto protegendo a pessoa. Aliás, eu tenho essa tendência de proteger, e fazer pelo outro e querer tomar a decisão por ele. É algo que venho aprendendo a melhorar em mim. Respeitar o outro e me respeitar (para não ser sugada por vampiros).

Porém, se o quesito é me mostrar para o outro... uma sensibilidade que foge do meu controle, que sai de mim, que brota em mim sem saber do outro., a vontade é correr! Não gosto desse descontrole. Gosto de confiar, de me sentir segura, saber onde piso.  Me interessar por algo próximo, me faz ter de encarar monstros e medos que acreditava superados. Descobrir (ou seria lembrar) que posso ser tão sensual quanto qualquer outra mulher, revirou coisas do fundo do baú.

Um sonho com cenário doido, futurista ou sei lá. As pessoas eram diferentes. A situação eu conhecia, e como eu conhecia. Uma repetição de algo que me deixou sem chão. Mostrou. Esfregou na minha cara que eu tô sempre fugindo, dando desculpa para não chegar perto de me envolver, confiar. Eu odeio campo minado. Mudam o local, as pessoas, mas o enredo e o alvo eu conheço bem. Sou eu que preciso encarar os monstros que me assombram. 

2017 sendo 2017. Um ano de me fazer acordar e me encarar. E parar com meu eterno receio de Deja Fu. 

E a foto da Mostra do Comunidança que mexeu é esta abaixo. Quem tirou essa foto foi a Maryssol Fotografias. É da turma de Dança Contemporânea. Estávamos dançando "Na sua cara" com uma coreografia do Lucas Santos.


Braços


Sempre achei que
Teus braços e costas formam asas
Sempre os imaginei voando
Quem foi que cortou tuas asas?
Ou será que estão amarradas?
Amarras do medo, das decepções
Dos "nãos" ouvidos, dos sorrisos sem futuro
Já me disseste que és árvore
Mas, tu não páras nunca
Como podes ser árvore?
Tu me mostras que balanças ao som
Do vento, da música
Te guias pela respiração do outro
Embalas outros com teu zêlo
Não gostas, mas choras
E como choras!
Olhando a quem chegas, a quem tocas
Entendo o que significa "árvore"
Dás frescor e distribuis sementes
Nem sempre brotam em outros terrenos
Mas, fazes na esperança de mais flores
De que floresçam outros
De que o mundo florirá
Teus braços não são asas, me enganei
São galhos me dando sombra.

O que mexe ao coração


Apesar do resfriado que me derrubou pela manhã, estava bem feliz. Estava muito animada a escrever um texto sobre coisas que me aquecem o coração. Queria contar sobre a apresentação da Focus Cia de Dança ontem no Méier. Queria agradecer de coração ao Anderson por ter me proporcionado isso. Das curiosidades, do que eu queria experimentar, onde mexeu no meu corpo cada parte da apresentação.

Queria falar da simpatia e do bailado do Cosme me hipnotizando. O que eu queria tentar. Com quem eu queria tentar, porque queria tentar. Queria falar da estranheza de como as fotos pós apresentação importam mais do que os abraços reveladores de sentimentos. Queri a passar o que senti com todas as palavras esclarecedoras e confusas (até porque confusão é o meu nome!).

Aí, animada para escrever, vejo a notícia dos ataques a um terreiro na Penha. Se eu falar que não me doeu ler algo assim, estou mentindo feio. Feio mesmo! De um ano para cá muitas memórias me visitaram. Acho que desde a vinda da Caruh e a redação do ENEM sobre intolerância em que lembrei da localização de alguns terreiros na Ilha (hoje fechados).

Das lembranças de infância tenho a visão de muita gente de branco às sextas, de ajuda ao próximo. Do boiadeiro ganho com o pedido de reza todas as noites. Dos cheiros que me manquei (há pouco tempo) que perfumavam as casas que frequentava. Do colorido das contas que sempre me chamaram atenção. E das broncas por tocar a cabeça ou o cabelo de todo mundo que eu conhecia.

Não entendo esse ódio, esse desrespeito ao próximo e à fé que este carrega.Por que isso? Por quê? Me dói saber que isso acontece. Tenho receio pelos amigos próximos que são do Axé. Será que estão protegidos? Será que estão em perigo ao andar por aí? Será que podem ser o que são e seguir o que acreditam com tantos sem amor no coração por aí apedrejando a fé alheia? Fico apreensiva de verdade. :'(

Sinto que água cura, talvez ela possa curar essa insanidade e desrespeito com o próximo. Assim como ela me cura quando estou para baixo.

Foto que o Gabu tirou na Cachoeira das Almas


Enquanto um pedaço de mim é feito de carne e lógica, o outro possui emoções que às vezes necessitam de um meio, de uma porta-voz. E assim, e aqui as expresso...