Espelho é carcaça


Em homenagem à Joyce que me inspirou na última aula de Literatura e Dança

Espelho é carcaça
"Nem no ovo o pinto está intacto"!
Muito menos refletida
Ali é sombra colorida com formas
Formas que você e eu podemos ver
Só que só eu sei que sou além disso
E aquém também
Não só emaranhado de células pulsando
Transformações o tempo todo
Inseguranças, descobertas do óbvio
O óbvio assusta
Erro e não são cômodos
Ao mesmo tempo que sou árvore
Sou pássaro nervoso se debatendo
Tem hora que tô no ovo
Tem vezes que quero arrancar as cascas
Elas não me protegem, nem me embalam
Só me escondem
Quero emergir.


PS: "Nem no ovo o pinto está intacto" é um trecho do conto "O espelho" de Guimarães Rosa.

Queria logo... queria breve


Um pouco da confusão em mim nas últimas semanas. Hoje nem sei bem se esse texto tá fazendo sentido. Tô deixando a poeira baixar, tudo se acalmar. E tá me fazendo bem. Abri os olhos para outras coias na vida, outras pessoas, outros amigos. Veremos as cenas dos próximos capítulos.

Tá me incomodando
Bateu uma tristeza
Bateu mesmo
Tanto que a cabeça dói
Os olhos ardem
Acho que perdi um amigo
Ficou tudo esquisito
Mais esquisito do que eu
Como é possível?
Ao mesmo tempo que sinto alívio
Que o incômodo passou no peito
O incômodo das respostas demoradas
Que pioram com a minha ansiedade
Que me deixam com os olhos pesados
Vontade de chorar
Mas, o choro não vem
Não quero gritar
Só quero sim ou não
Certo, sem curva
Sem rodeios ou delicadezas
Não precisa sorrir
Pode ser direto
Curto e grosso
Não sei de onde tiram que precisam de jeito para falar comigo
De onde inventaram isso?
Eu sou grossa
Eu já sei que a resposta é não
É pedir muito que seja logo?
É pedir muito que seja hoje?
Não tenho espaço na sua agenda
Já sei!
Só queria que fosse rápido
Só queria que fosse breve
E que o peso dos olhos saísse
A espera ofega a respiração
A espera piora a minha ansiedade
A espera grita em mim
Eu quero logo
Eu quero breve
O problema é que não é no meu tempo
Como colocar isso na cabeça?
Como? Como? CO-MO?!
Tô escrevendo sem lá muito sentido
Minha cabeça tá doendo
Tá confusa
Senti que perdi um amigo
Não sei lidar com isso
Não agora
Não sei o que pensar
Acho que se fosse com outra pessoa talvez não fosse assim
Talvez... odeio essa palavra
Não dá certeza que o corpo grita
Independente de ser sim ou não
O que eu quero mesmo é uma resposta
Para que eu corte ou regue as raízes da vontade
Mas, só queria que soubesse
Só falei porque a vontade não passava
E, obviamente, estava atacada de raiva
Tá tão claro para mim
Como não vê?
Tô para baixo
Preciso de um abraço
Daqueles longos
Daqueles que me permitam chorar, se necessário, se rolar
Tô com a garganta doendo
Me dá um abraço?
Pode guardar a resposta para você
Só quero o abraço
De verdade
Só quero o abraço!

Curvas

Curvas...
Curvas...
Há quem pense em estrada
Ou no corpo
Eu penso nas palavras que rodeiam
Dão voltas
A figura curva é bonita
Mas, dói quando é em palavras
Parece que todo mundo tem receio de ser direto
O talvez, o quem sabe, o pode ser
Parecem suaves
Só parecem
Eu gosto das curvas que o vento dá
De como mexe na água, nas árvores
Do som que provoca
Não gosto de palavras curvas
Me doem
E como doem!
Minha sensibilidade doente
Minha fragilidade e raiva vêm à tona
Não quero!
Não gosto!
Não sou talvez
Faça o favor de ser claro


Semear


Coração é terra de ninguém
O primeiro que joga semente de atenção
A chuva vem e rega vontades
Só que a terra de lá não brota nada
Ou se brota, guarda para si
A terra de cá germina
Embora não veja mais a chuva
Já criou algumas raízes
E agora como faz para tirar?
Outro quer semear
Como arar a terra e permitir
Coração é terra de ninguém
Mas, como eu queria cuidar de um.

Enquanto um pedaço de mim é feito de carne e lógica, o outro possui emoções que às vezes necessitam de um meio, de uma porta-voz. E assim, e aqui as expresso...